Esse texto foi enviado para a página Preta&Gorda no dia 14 de setembro de 2013. Sou preta e gorda, então me sinto parte desta página.
Achei interessante postar aqui no Blog. :)
"E agora estou chorando, não é drama, não é TPM... É tristeza mesmo. Ontem vi o comercial da boticário e não me vi. Pensei comigo: tem que parar de dramatizar, Fran. Olha uma preta ali, e o rosto dela é desfocado... Ela tem o cabelo black power... É bem no finalzinho do comercial, é a última da fila, [se não me engano], a pele é bem clarinha...
Tenho postado coisas, falado com as pessoas, surpreendido o mundo.
Eu converso, mas me sinto contra o mundo. Contra todos os pensamentos da maioria.
Tenho uma "amiga" que ela é adequada às formas brancas e disse não gostar do cabelo duro, até aí tudo bem, beleza... Mas é uma pessoa dessas reforça o racismo. É uma pessoa dessas que não emprega alguém que esteja diferente do padrão, do modelo mental a ser seguido... Isso gerou uma pequena polêmica entre mim e ela, que me disse que eu deveria levar a vida de forma mais leve... Como? Furando meus olhos? Tapando meus ouvidos? Perdendo meus sentidos no que tange o racismo cru verbalizado em conversas de trabalho?
A discussão foi por conta de Gominho um rapaz que participa de um programa "real life" [esqueci o nome do programa, mas passa na record], então um colega de trabalho comentou que ele era uma bicha de cabelo de arapuá. Isso não reforça o racismo não? É um comentário bizarro, que eu sou obrigada a aceitar? Até aí tudo bem. Postei o texto aqui e essa minha amiga disse que o cabelo do cara era arapuá mesmo.
E eu expliquei o reforço do racismo, e aí ela me aconselhou a levar a vida de forma leve.
Eu penso que estou cansada. Tenho 30 anos. Estou nova. E acho que esse mundo não é para mim. Tenho na minha mente onde todos podem fazer o que quiserem, mas sem desrespeitar o direito de quem vem, pois não teremos encontrões, não teremos brigas. Estou triste, pois o racismo existe e eu tento, falo, discuto, mas parece que estou nadando sozinha, contra um sentimento que só eu tenho. Contra algo que não existe, que somente está na minha cabeça... Aí me torno alguém contra o mundo inteiro, alguém mal amada, alguém que precisa brigar o tempo inteiro, alguém que não está pronta para viver com opiniões divergentes no que tange ao ser negro.
E hoje, meu choro começou quando vi o texto relacionado à Empresa Boticário, que vi o comercial ontem, conforme contei acima. Onde nós aparecemos com o rosto desfocado. E eu? Ah. Pareço uma louca. Eu vejo a surpresa quando estou no elevador e tiro a chave do carro da bolsa. Não, isso não é mania de perseguição. Isso eu vejo diariamente.
É um estresse diário ser negro, mostrar-se a favor da sua negritude, ser relax com seu corpo, ser feliz com seu modo de ser, contudo acho que estou me indispondo mais com as pessoas, por conta desses episódios cotidianos e corriqueiros."
